terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O dia em que as Muralhas de Guimaraes perderam o Coração

Isa a Louca percorria as muralhas, um pouco a titubear e muito a trautear umas quadras cantadas, ou melhor, esganiçadas ao desafio, ainda esta madrugada, com o compadre Santal da Confraria dos Amigos do Tintol.
Algo atordoada, encostou-se ao muro que achou estranhamente quente e vibrante. Já perdera a conta às vezes em que, em fins de tardes soalheiras, se amantara àquelas muralhas, guardadoras parcimoniosas de energia solar. Era estranho, de facto, às sete da manhã, após um acentuado arrefecimento nocturno, normal nestes primeiros dias de 2009, sentir ainda este magnetismo de bem-estar.
A Profetiza, amplamente conhecida como tal em toda a cidade de Berço, não se delongou muito sobre o assunto, antes porém, achou que era a hora aritmeticamente certa de fazer jus ao epíteto. Apontou o dedo para os domínios celestes e vaticinou em dó maior:
- Hoje é um novo dia!
De facto, as suas profecias não eram de todo de uma clarividência arrebatadora, mas a ênfase e a convicção com que proferia as palavras faziam dela uma das figuras tipo da cidade de Guimarães.
Daí, lembrou-se que era também conhecida por “ a Poetisa”, pelos versos que fossilizava um pouco por todos os lados, onde as superfícies lhe toleravam a escrita. Possuía um terceiro epíteto, que o próprio nome carregava, mas desse fazia questão em não se lembrar.
Naquele momento, acometida por uma impetuosa inspiração, escreveu na muralha: “ Do nosso adeus faço o meu viver e as minhas memorias…” Não conseguiu acabar. Um tremor de terra sacudiu as muralhas e fê-la recuar instintivamente. O forte espasmo, de alguns segundos culminou numa derrocada de pedras.
Isa a Louca pôs a loucura ao serviço das pernas que voaram pela avenida abaixo e apenas pararam na pastelaria Celeste. O alarido fez com que os ainda pouco clientes matinais acorressem ao local.O espectáculo era, de facto, incrível. Um enorme buraco de provavelmente quase dois metros de diâmetro esventrava a muralha. E o mais inaudito é que tinha a forma perfeita de um coração.
Nos dias que se seguiram os vimaranenses facilmente ouviram Isa a Louca a apregoar:
- A muralha perdeu o coração, a muralha perdeu o coração!
As autoridades competentes, alertadas do sucedido chamaram com a urgência uma equipa de arqueologia do Museu D. Diogo de Sousa.
Já naquela tarde, enquanto a equipa estudava a recuperação da parcela danificada, o Vereador da cultura recebeu uma chamada, a informá-lo que houvera outra derrocada de pedras, desta feita na cripta mortuária, no subsolo da igreja S. Domingos. O mais inverosímil é que a cratera deixada na parede tinha exactamente a mesma forma, embora com dimensões ligeiramente menores: sim, mais uma vez um coração! Se muitos estudiosos e letradas, tinham encarada a semelhança como mera coincidência, agora mostravam um certo pasmo. Havia, alem do mais, um dado curioso. Junto encontraram segmentos de ósseos, provavelmente humanos. Pediu-se a colaboração a Sociedade Martins Sarmento para encontrar alguma causa da natureza geológica, arquitectónica, histórica ou cultural, ou seja uma explicação científica.
Os resultados foram inconclusivos. Sabe-se que os poucos vestígios de muralhas que hoje sobreviveram datam do reinado de D. Dinis, no século XIV. Originalmente, estas estendiam-se por dois mil metros e ligavam duas e ligavam duas portas da cidade e oito torres. Actualmente, apenas resta um extenso pano, sendo o troço maior ao longo da avenida Alberto Sampaio. Sabia-se também que as muralhas passavam junto da igreja de S. Domingos, mas apesar de intensas investigações, ninguém conseguia apresentar uma razão plausível para o sucedido.
Decidiu-se então passar-se à restauração minuciosa da muralha. Mas algo estava errada. Já não havia pedra suficiente para recompor o buraco!
Na câmara, o clima começou a ficar tenso e ate já se falava em cabaça, que isto não podia estar a acontecer, nas vésperas da aprovação do projecto para Guimarães, capital europeia da cultura em 2012. Dai, o vereador receba uma carta anónima que dizia:O Poeta Fernando Pessoa já dizia: “ Pedras no caminho? Guardo-as todas, um dia vou construir um castelo!” Por isso fiquei com algumas, e desde já peço que me desculpem, mas devolvo a carta que encontrei no chão”.
Junto, vinha um papel amarelecido pelo tempo, envolto numa tira de cabedal. O secretário, curioso, esticou o pescoço e ainda conseguiu ler as primeiras linhas, embora a linguagem fosse algo estranha e a tinta quase apagada. Começava assim a missiva, numa caligrafia cuidada, Provavelmente feminina: “ Do nosso adeus faço o meu viver e das memórias sofridas ergueremos dos nossos corações uma muralha que nada do que esta por vir poderá separar. É da minha vontade que…” Neste instante foi-lhe sonegado o direito de continuar a ler, já que o vereador abruptamente dobrou o papel pois lembrara-se que o seu secretario tinha o mau hábito de dar com a língua nos dentes. Agora, o Vereador, aliviado, sabia precisamente o que tinha de fazer. No dia seguinte, foram buscar a pedra que tombara na cripta da igreja a fim de colmatar a falha da muralha. As pedras encaixaram com uma perfeição assombrosa.
A carta encontra-se guardada a sete chaves na Sociedade Martins Sarmento.
Do resto do seu conteúdo nada se sabe ao certo.
Corre o boato veiculado em parte por Isa a louca, que uma donzela da nobreza se teria apaixonado por um plebeu e que se terão matado já que lhes fora negado o direito de ficarem juntos. Teriam deixado como última vontade o desejo de os seus restos mortais jazerem juntos e emparedados nas muralhas que estavam a ser erguidas naquela época, mas que o pai, um muro de orgulho, considerou louco e pedido e que a teria mandado enterrar na Igreja de S. Francisco.
Se vierem a Guimarães e passarem pelas muralhas, dificilmente conseguirão ver alguma cicatriz do sucedido, mas dizem que em noite de lua cheia quando o amor passa de mãos dadas pela avenida Dr. Alberto Sampaio, que se consegue ver o contorno avermelhado de dois corações unidos pois o que o amor uniu não pode o Homem separar…

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